Corrida e ciclo menstrual – Outubro Rosa: mês de prevenção do cancro da mama
O movimento conhecido por “Outubro Rosa” (Pink October) nasceu nos Estados Unidos da América, na década de 90 do século passado, com o intuito de inspirar a mudança e mobilizar a sociedade para a luta contra o cancro da mama. Desde então, por todo o mundo, a cor rosa é utilizada para homenagear as mulheres com cancro da mama, sensibilizar para a prevenção e diagnóstico precoce e apoiar a investigação nesta área.A Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), em representação da EUROPA DONNA (Coligação Europeia Contra o Cancro da Mama) e através do Movimento “Vencer e Viver”, promove a iniciativa “Outubro Rosa” com a finalidade de consciencializar para a prevenção e diagnóstico precoce do cancro da mama, nomeadamente através do Rastreio, e divulgar informação e formas de apoio à mulher e família.A Liga Portuguesa Contra o Cancro desafia a comunidade a juntar-se ao movimento “Outubro Rosa”, com o desenvolvimento de iniciativas solidárias durante o mês de outubro, com particular destaque para os dias em que se assinalam três importantes efemérides:
- 13 de outubro: Dia Mundial do Cancro da Mama Metastático
- 15 de outubro: Dia da Saúde da Mama (Breast Health Day)
- 30 de outubro: Dia Nacional de Prevenção do Cancro da Mama
Fonte: https://www.ligacontracancro.pt/outubrorosa/
O cancro da mama
O cancro da mama é um relevante problema de saúde pública. Segundo os dados estatísticos mais recentes (Globocan, 2024), o cancro da mama é o mais frequente (prevalente) em Portugal e em todo mundo.Em 2022, no nosso país, estima-se que cerca de 9.000 mulheres tenham sido diagnosticadas com cancro da mama e mais de 2.000 tenham morrido com esta doença. Apesar de ser o tipo de cancro mais incidente na mulher (com maior número de casos), cerca de 1 em cada 100 cancros da mama desenvolvem-se no homem.Não são conhecidas as causas exatas do cancro da mama. No entanto, foram identificados alguns fatores de risco que importa conhecer:
- O maior fator de risco para o cancro da mama é a idade (80% de todos os tipos de cancro da mama ocorre em mulheres com mais de 50 anos);
- Uma mulher que já tenha tido cancro numa das mamas tem maior risco de ter esta doença na outra;
- As alterações em determinados genes, transmitidas pelos pais, estão na origem de cerca de 5% a 10% dos casos de cancro da mama;
- O excesso de peso aumenta o risco de desenvolvimento de cancro da mama;
- O consumo de tabaco ou o consumo excessivo de álcool estão associados ao desenvolvimento de vários cancros, incluindo o da mama;
- A primeira menstruação em idade precoce (antes dos 12 anos) e uma menopausa tardia (após os 55 anos) são fatores de risco para o cancro da mama.
Se diagnosticado e tratado precocemente, o cancro da mama tem uma taxa de cura superior a 90%. A prevenção e diagnóstico precoce são fundamentais para o aumento da sobrevivência e manutenção da qualidade de vida da mulher.
Fonte: https://www.ligacontracancro.pt/outubrorosa/
É dentro deste espírito, que há um tema essencial que, até há pouco tempo, era quase um tabu no desporto: a relação entre a corrida e o ciclo menstrual.
Se és atleta, corredora ou simplesmente alguém que gosta de manter-se ativa, já deves ter sentido dias em que o corpo parece responder melhor e outros em que o mesmo treino parece uma montanha. Não é coincidência: as oscilações hormonais ao longo do ciclo têm impacto real no desempenho, na energia, no humor e até na recuperação.
Neste artigo, vais perceber como o teu corpo muda ao longo do mês, o que acontece em cada fase e como podes ajustar os treinos para tirar o máximo proveito dessas variações naturais, sem te forçares nem culpares quando o corpo pede pausa.
1. O ciclo menstrual e as suas quatro fases: o que realmente acontece no corpo
O ciclo menstrual é muito mais do que os dias de menstruação. É uma dança hormonal contínua entre estrogénio e progesterona, com impacto direto na energia, na temperatura corporal, na motivação e até no metabolismo.
Vamos resumir as quatro fases principais:
1️⃣ Fase menstrual (dias 1 a 5)
É o início do ciclo, marcado pelo sangramento. Os níveis de estrogénio e progesterona estão no ponto mais baixo. É normal sentir menos energia, cólicas, inchaço e até irritabilidade.
2️⃣ Fase folicular (dias 6 a 13)
Após o período, o estrogénio começa a subir. O corpo sente-se mais leve e enérgico. A recuperação é mais rápida e o rendimento tende a melhorar.
3️⃣ Ovulação (dias 14 a 17)
O estrogénio atinge o pico e há um pequeno aumento de testosterona, ótimo momento para treinos intensos e de performance. Contudo, o risco de lesões pode aumentar ligeiramente devido à maior elasticidade dos ligamentos.
4️⃣ Fase lútea (dias 18 a 28)
A progesterona domina. A temperatura corporal sobe, a recuperação torna-se mais lenta e a fadiga pode aparecer mais facilmente. O corpo retém líquidos e o sono pode piorar.
2. Como o ciclo influencia o desempenho desportivo
Estudos recentes mostram que cerca de 70% das atletas percebem alterações no rendimento ao longo do ciclo.
O estrogénio é anabólico, promove força, disposição e metabolismo eficiente. Já a progesterona é mais catabólica, favorece o cansaço e a sensação de calor.
💡 Resumo prático:
- Durante a fase folicular e ovulatória, o corpo está no auge físico e mental.
- Na fase lútea e menstrual, há tendência à fadiga e piora o desempenho anaeróbico, mas mantém-se a resistência aeróbica com ajustes de intensidade.
O segredo? Treinar com o ciclo, não contra ele.
3. Como ajustar o treino a cada fase do ciclo menstrual
Cada fase hormonal exige um tipo diferente de estímulo. Adaptar o treino permite otimizar performance e reduzir risco de lesões.
| Fase | Duração média | Estado físico | Foco do treino |
|---|---|---|---|
| Menstrual | 1–5 dias | Energia baixa, possíveis dores | Treinos leves, regenerativos, caminhadas, yoga |
| Folicular | 6–13 dias | Energia crescente, recuperação rápida | Corridas longas e intensas, intervalados, treinos de força |
| Ovulatória | 14–17 dias | Potência máxima, motivação alta | Treinos de velocidade e performance |
| Lútea | 18–28 dias | Retenção hídrica, fadiga, temperatura alta | Corridas moderadas, foco em técnica, alongamentos e descanso |
4. Planos semanais adaptados ao ciclo menstrual
A seguir, apresentamo planos de treino semanais práticos para corredoras (de nível intermédio) que treinam 4 a 5 vezes por semana.
Podes adaptar conforme a tua realidade e nível de energia.
🩸 Fase Menstrual (Dias 1–5) – Menos é mais
Objetivo: respeitar o corpo e promover recuperação ativa.
| Dia | Treino sugerido | Duração | Observações |
|---|---|---|---|
| Segunda | Caminhada leve ou trote | 30–40 min | Se houver cólicas, substitui por alongamentos ou descanso |
| Terça | Descanso ativo | — | Yoga ou mobilidade |
| Quarta | Corrida leve | 40 min | Ritmo confortável, 60–65% FC máx |
| Quinta | Força funcional | 30 min | Exercícios leves: prancha, glúteos, core |
| Domingo | Caminhada + alongamentos | 30 min | Evitar impacto se o fluxo for intenso |
💬 Dica: hidrata-te bem e evita treinos longos nas primeiras 48h do ciclo.
🌸 Fase Folicular (Dias 6–13) – Crescer e desafiar
Objetivo: aproveitar o pico de energia e capacidade de adaptação.
| Dia | Treino sugerido | Duração | Observações |
|---|---|---|---|
| Segunda | Corrida contínua leve | 45 min | Base aeróbica |
| Terça | Treino de força | 40–50 min | Pernas + core |
| Quarta | Intervalado | 6x400m ou 5x1min rápido | Intensidade alta |
| Sexta | Corrida progressiva | 50 min | Começa leve, termina forte |
| Domingo | Corrida longa | 70–80 min | Ritmo controlado |
💬 Dica: este é o melhor momento do ciclo para bater recordes pessoais. A recuperação é rápida, a força aumenta e a motivação está alta.
💪 Fase Ovulatória (Dias 14–17) – Performance e atenção
Objetivo: explorar o máximo potencial, mas prevenir lesões.
| Dia | Treino sugerido | Duração | Observações |
|---|---|---|---|
| Segunda | Corrida curta intensa | 30 min | Foco em velocidade |
| Quarta | Subidas curtas (hill sprints) | 6x30s | Potência máxima |
| Sexta | Corrida contínua média | 45–50 min | Ritmo moderado |
| Domingo | Força explosiva | 40 min | Saltos, pliometria leve |
💬 Dica: cuidado com tornozelos e joelhos, os ligamentos estão mais elásticos nesta fase.
🌙 Fase Lútea (Dias 18–28) – Regenerar e ouvir o corpo
Objetivo: manter o ritmo sem exigir o máximo.
| Dia | Treino sugerido | Duração | Observações |
|---|---|---|---|
| Segunda | Corrida leve | 45 min | Ritmo confortável |
| Quarta | Treino técnico | 30–40 min | Trabalha postura e passada |
| Sexta | Corrida progressiva curta | 30 min | Termina a 70–75% FC máx |
| Domingo | Caminhada longa ou descanso | — | Ajuda a combater retenção |
💬 Dica: nesta fase, a temperatura corporal aumenta. Treina em horários frescos e prioriza o sono.
5. Nutrição e recuperação: o que muda em cada fase
A nutrição pode ajudar a suavizar os efeitos hormonais e otimizar energia:
- Durante a menstruação: aumenta a ingestão de ferro (espinafre, lentilhas, carnes magras) e vitamina C.
- Na fase folicular: aproveita para reforçar proteína e hidratos, garantindo energia para treinos mais intensos.
- Na ovulação: mantém boa hidratação e eletrólitos — há tendência a maior perda de sais.
- Na fase lútea: controla a vontade de doces com frutas e hidratos complexos (aveia, batata-doce, quinoa).
E, claro, dormir bem é essencial. O sono afeta diretamente o equilíbrio hormonal e a recuperação muscular.
6. Tecnologia e autoconhecimento
Usar apps de tracking menstrual (como Flo, Clue ou Wild.AI) pode ser uma ferramenta poderosa.
Anotações simples sobre o teu humor, energia e desempenho ajudam-te a identificar padrões e planear melhor os treinos.
Exemplo:
Se percebes que nos dias 25–28 ficas mais lenta ou cansada, ajusta a carga nesse período. Se os dias 10–14 são os teus melhores, aproveita para competir ou testar ritmos.
Conclusão
O ciclo menstrual não é um obstáculo, é uma bússola.
Quando aprendes a reconhecê-lo e a adaptar o treino, deixas de lutar contra o corpo e passas a treinar com ele.
Correr de acordo com o teu ciclo é mais do que fisiologia, é autoconhecimento, empatia e equilíbrio.
Neste Outubro Rosa, lembra-te: respeitar o teu corpo é o ato mais poderoso de prevenção e performance que podes praticar.
FAQs sobre corrida e ciclo menstrual
1. Posso correr durante a menstruação?
Sim, desde que te sintas bem. Adapta a intensidade.
2. O ciclo afeta a performance de todas as atletas?
Depende. Cada corpo reage de forma diferente às variações hormonais.
3. Devo treinar mais forte em alguma fase?
Sim, na fase folicular e ovulatória tendes mais energia.
4. Há risco de lesão na ovulação?
Ligeiramente maior. Os ligamentos ficam mais elásticos.
5. Usar contraceptivos muda o desempenho?
Pode reduzir flutuações hormonais, mas cada caso é único.



