Erros mais comuns na alimentação. Treinas regularmente, cumpres o plano de treinos, investes em equipamento adequado e procuras melhorar os teus tempos ou a tua condição física. No entanto, apesar de todo esse esforço, os resultados nem sempre acompanham as expectativas.
Muitas vezes o problema não está no treino. Está na alimentação.
A nutrição é um dos pilares do desempenho desportivo. Uma estratégia alimentar inadequada pode comprometer a recuperação muscular, aumentar o risco de lesão, provocar fadiga precoce e limitar a evolução física, independentemente da modalidade praticada.
Entre corredores, ciclistas, praticantes de trail running, atletas de desportos coletivos ou simplesmente pessoas fisicamente ativas, existem erros alimentares que se repetem com enorme frequência. Alguns parecem insignificantes. Outros resultam de informações contraditórias encontradas nas redes sociais ou em tendências alimentares da moda.
Neste artigo vais conhecer os erros mais comuns na alimentação de quem pratica desporto regularmente e perceber como os podes corrigir para tirar maior partido dos teus treinos.
1. Comer pouco por receio de aumentar de peso
Este é provavelmente um dos erros mais frequentes.
Muitos atletas amadores acreditam que reduzir calorias melhora automaticamente a composição corporal. Na prática, acontece frequentemente o contrário.
Quando a ingestão energética é insuficiente, o organismo entra num estado de conservação. O corpo passa a ter menos energia disponível para os treinos, reduz a capacidade de recuperação e aumenta a sensação de fadiga.
Além disso, um défice energético prolongado pode provocar:
- Perda de massa muscular
- Diminuição do rendimento
- Maior propensão para lesões
- Alterações hormonais
- Recuperação mais lenta
Exemplo prático
Um corredor que treina cinco vezes por semana e gasta cerca de 700 calorias por treino não pode alimentar-se da mesma forma que alguém sedentário.
A solução passa por ajustar a ingestão alimentar ao volume e intensidade do treino, garantindo energia suficiente para suportar o esforço físico.
2. Cortar demasiado os hidratos de carbono
Nos últimos anos surgiram inúmeras dietas com restrição severa de hidratos de carbono.
Embora possam ter aplicação em contextos específicos, para a maioria dos atletas de resistência os hidratos continuam a ser o principal combustível durante o exercício.
Quando os níveis de glicogénio muscular diminuem excessivamente, surgem sintomas bem conhecidos:
- Quebras de energia
- Sensação de pernas pesadas
- Diminuição da intensidade
- Recuperação mais lenta
Como corrigir
Privilegia fontes de hidratos de qualidade:
- Aveia
- Arroz
- Batata-doce
- Batata
- Massa
- Fruta
- Leguminosas
Não significa comer hidratos em excesso. Significa consumir a quantidade adequada ao teu volume de treino.
3. Não comer antes dos treinos longos
Há quem saia para correr durante uma hora ou mais apenas com um café.
Em alguns casos específicos pode funcionar. No entanto, para muitos atletas resulta numa redução significativa do rendimento.
Quando o treino é exigente ou prolongado, iniciar a sessão com reservas energéticas baixas aumenta a probabilidade de fadiga precoce.
Exemplo prático
Imagina uma corrida de 15 km ao domingo de manhã.
Comparando dois atletas com preparação semelhante:
- Um toma apenas café.
- Outro consome uma banana e uma fatia de pão com mel cerca de uma hora antes.
Na maioria dos casos, o segundo atleta terá níveis de energia mais estáveis ao longo do treino.
4. Ignorar a alimentação após o exercício
Terminada a corrida, muitos atletas tomam banho e seguem o resto do dia sem qualquer preocupação nutricional.
É um erro.
O período após o treino representa uma oportunidade importante para iniciar os processos de recuperação.
Durante esse período o organismo procura:
- Repor glicogénio
- Reparar fibras musculares
- Restabelecer o equilíbrio metabólico
A combinação de hidratos de carbono e proteína após o exercício apresenta benefícios consistentes na recuperação.
Boas opções
- Iogurte skyr com fruta
- Leite com chocolate e banana
- Sanduíche de peru
- Papas de aveia com proteína
Não é necessário recorrer imediatamente a suplementos.
5. Beber água apenas quando aparece sede
A sede não é um indicador precoce de desidratação.
Quando a sensação de sede surge, o organismo já perdeu uma quantidade significativa de líquidos.
Mesmo pequenas perdas de água podem afetar:
- Frequência cardíaca
- Termorregulação
- Capacidade de esforço
- Concentração
A desidratação continua a ser um dos fatores que mais influencia negativamente o rendimento desportivo.
Como corrigir
Cria hábitos simples:
- Beber água ao longo do dia
- Iniciar os treinos hidratado
- Repor líquidos após o exercício
- Utilizar bebidas com eletrólitos em sessões longas ou dias muito quentes
6. Consumir proteína em excesso e negligenciar outros nutrientes
As proteínas são fundamentais.
O problema surge quando toda a alimentação gira exclusivamente à volta delas.
É comum encontrar atletas que consomem vários batidos por dia mas têm ingestões insuficientes de:
- Fruta
- Legumes
- Cereais integrais
- Gorduras saudáveis
A proteína desempenha um papel importante na recuperação muscular, mas não substitui os restantes nutrientes necessários ao desempenho.
Exemplo prático
Um almoço composto apenas por peito de frango grelhado é menos completo do que:
- Peito de frango
- Arroz
- Legumes
- Azeite
Neste segundo exemplo existe maior equilíbrio nutricional.
7. Testar alimentos novos no dia da prova
Quase todos os atletas experientes conhecem alguém que já sofreu consequências desta decisão.
Experimentar um novo gel, suplemento, bebida isotónica ou refeição pré-competitiva no próprio dia da prova pode transformar meses de preparação num enorme problema gastrointestinal.
Regra simples
Nada de novo no dia da competição.
Tudo o que pretendes utilizar deve ser testado previamente em treino.
Esta recomendação é válida para:
- Géis energéticos
- Barras
- Bebidas isotónicas
- Pequenos-almoços
- Suplementos
8. Saltar refeições por falta de tempo
A rotina profissional e familiar dificulta frequentemente uma alimentação estruturada.
O problema surge quando passas muitas horas sem comer e tentas compensar mais tarde.
Esta situação pode originar:
- Quebras de energia
- Excesso alimentar ao jantar
- Dificuldade na recuperação
Estratégias simples
Mantém opções práticas disponíveis:
- Fruta
- Iogurtes
- Frutos secos
- Sanduíches simples
- Barras de aveia
O objetivo não é comer constantemente, mas evitar períodos excessivamente longos sem ingestão alimentar quando existe elevada carga de treino.
9. Menosprezar a importância dos micronutrientes
Quando se fala em nutrição desportiva, a atenção recai quase sempre sobre:
- Proteínas
- Hidratos de carbono
- Gorduras
No entanto, vitaminas e minerais desempenham funções igualmente importantes.
Deficiências nutricionais podem afetar:
- Produção de energia
- Recuperação
- Sistema imunitário
- Saúde óssea
Uma alimentação pouco variada aumenta significativamente este risco.
Como corrigir
Procura incluir diariamente:
- Legumes de diferentes cores
- Fruta variada
- Leguminosas
- Frutos secos
- Peixe
- Ovos
Quanto maior a diversidade alimentar, maior a probabilidade de cobrir as necessidades nutricionais.
10. Pensar que os suplementos resolvem tudo
A indústria dos suplementos movimenta milhares de milhões de euros e a publicidade promete frequentemente resultados rápidos.
Contudo, muitos atletas procuram suplementos antes de corrigirem os aspetos fundamentais.
A realidade é simples:
Nenhum suplemento consegue compensar:
- Falta de sono
- Alimentação inadequada
- Má recuperação
- Treino mal estruturado
Os suplementos podem ser úteis em determinadas circunstâncias, mas representam apenas uma pequena parte do processo.
Ordem de prioridades
- Treino adequado
- Sono de qualidade
- Alimentação equilibrada
- Hidratação
- Suplementação quando necessária
Como construir uma alimentação mais adequada para quem pratica desporto
Independentemente da modalidade, existem princípios que funcionam para a maioria das pessoas fisicamente ativas.
Prioriza alimentos pouco processados
Quanto mais próximo o alimento estiver da sua forma natural, melhor.
Ajusta a ingestão ao treino
Não precisas da mesma quantidade de energia num dia de descanso e num dia de treino longo.
Planeia antecipadamente
A maioria dos erros alimentares acontece por falta de planeamento.
Mantém uma hidratação consistente
Não deixes toda a hidratação para o momento do treino.
Dá importância à recuperação
Treinar é apenas o estímulo. A adaptação acontece durante a recuperação.
Conclusão dos erros mais comuns na alimentação
Os erros alimentares mais comuns entre corredores e praticantes de desporto raramente estão relacionados com falta de esforço ou dedicação. Na maioria das situações resultam de hábitos inadequados, informação desatualizada ou estratégias que parecem fazer sentido mas que acabam por prejudicar o rendimento.
Garantir energia suficiente, consumir hidratos de carbono de forma adequada, manter uma boa hidratação, respeitar a recuperação e construir uma alimentação equilibrada continua a ser a base para melhorar o desempenho, reduzir o risco de lesão e desfrutar mais da prática desportiva.
Pequenas mudanças consistentes produzem frequentemente resultados muito superiores a alterações radicais que são difíceis de manter ao longo do tempo.
FAQs sobre erros mais comuns na alimentação
Quantas horas antes de correr devo comer?
Depende da refeição. Uma refeição completa deve ocorrer entre duas a quatro horas antes do treino. Um pequeno snack pode ser consumido entre 30 e 60 minutos antes.
É obrigatório tomar suplementos para correr melhor?
Não. A maioria dos atletas consegue satisfazer as necessidades nutricionais através da alimentação. Os suplementos devem complementar uma estratégia nutricional adequada e não substituí-la.
Correr em jejum ajuda a perder peso?
Pode contribuir para um défice calórico em algumas pessoas, mas não é necessariamente superior a outras estratégias nutricionais. Além disso, pode reduzir a intensidade e a qualidade do treino.
O que devo comer depois de correr?
Idealmente uma combinação de hidratos de carbono e proteína para favorecer a reposição energética e a recuperação muscular.
Quantos litros de água devo beber por dia?
Não existe um valor universal. As necessidades dependem do peso corporal, temperatura ambiente, intensidade do exercício e taxa individual de transpiração. No entanto, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda 1 Lt por cada 30kg de peso nos homens e 1 Lt por cada 25kg de peso nas mulheres.
Os hidratos de carbono engordam?
Não. O aumento de peso resulta de um excedente calórico prolongado. Os hidratos de carbono são uma fonte de energia fundamental para quem pratica desporto regularmente.



