Olá Atleta! Se corres há algum tempo, sabes que há dois números que os corredores adoram acompanhar: o pace e a distância. Mas existe outro indicador que pode transformar a tua técnica, reduzir o impacto nas articulações e melhorar a tua economia de corrida: a cadência na corrida.
A cadência na corrida representa o número de passos por minuto e funciona como um metrónomo natural do teu corpo. Quando aprendes a ajustá-la ao teu perfil, à tua velocidade e ao teu objectivo, consegues correr com mais suavidade, menos impacto e maior consistência.
No artigo publicado no All4Running a 17 de setembro, explorámos como a cadência influencia o teu movimento e apresentámos estratégias iniciais para a melhorares. Neste novo artigo, vamos mais fundo: não vamos repetir o que já foi dito, mas sim complementar com biomecânica avançada, formas de medição precisas, exercícios específicos para treinar cadência, erros comuns e como relacionar cadência com pace usando a calculadora do All4Running.
Se o objectivo é correres com maior eficiência e menos lesões, encontrar a tua cadência ideal vai ajudar-te a desbloquear um nível acima na corrida.
1. O que é a cadência na corrida e porque é tão determinante biomecanicamente
A cadência na corrida é o número de passos que dás por minuto. Este valor traduz-se numa métrica directa da tua técnica porque determina como distribuis o impacto, como o teu pé aterra e o tempo de contacto com o solo.
Uma cadência demasiado baixa costuma estar associada a:
- overstriding (pé a aterrar demasiado à frente do corpo)
- impacto elevado no calcanhar
- maior carga nos joelhos
- menor eficiência mecânica
Por outro lado, uma cadência muito alta pode gerar fadiga prematura, aumento da frequência respiratória e perda de economia, especialmente para quem ainda não estabilizou força e técnica.
A literatura científica mostra que aumentar a cadência em 5 a 10 % reduz significativamente o impacto vertical e diminui o stress no joelho e anca. Isto acontece porque, quando aumentamos ligeiramente a cadência, o passo naturalmente encurta e a aterragem acontece debaixo do centro de massa e não à frente. Várias análises de biomecânica sustentam que este é um dos ajustes mais eficazes para melhorar eficiência e segurança na corrida.
2. A cadência na corrida ideal existe? Sim… e não
A famosa referência dos 180 passos por minuto popularizou-se devido a estudos de corredores de elite. No entanto, esta não é uma meta universal.
A cadência ideal depende de:
- estatura
- comprimento da perna
- velocidade
- força muscular
- técnica
- experiência
- tipo de prova
Por exemplo:
- Corredores mais altos tendem a ter cadências ligeiramente mais baixas.
- Corredores mais leves e com boa técnica tendem a conseguir cadências mais altas sem esforço extra.
- Em ritmos lentos, uma cadência entre 160–170 pode ser mais eficiente do que tentar forçar 180.
O objectivo não é atingir um número mágico, mas sim encontrar a cadência que melhora a tua eficiência a diferentes ritmos.
3. Como medir a cadência na corrida de forma correcta
1. Usar relógio GPS com sensor de cadência
Hoje, quase todos os relógios de corrida medem cadência automaticamente e oferecem valores médios por treino, por quilómetro e em tempo real.
Este é o método mais fiável, já que combina o acelerómetro interno com o algoritmo de detecção de passos.
2. Aplicações de smartphone
Várias apps detetam cadência através do movimento, mas são menos fiáveis devido à variação de amplitude e posição do telemóvel.
3. Contagem manual de passos
É simples e útil para treino técnico:
- corre em ritmo cómodo
- conta quantos passos dás com um pé durante 30 segundos
- multiplica por 4.
Isto dá-te a cadência aproximada.
4. Combinar cadência com pace (usando a calculadora do All4Running)
A calculadora de pace do All4Running ajuda-te a perceber a relação entre velocidade e cadência:
- Se aumentares a cadência, o pace tende a estabilizar mesmo quando a fadiga aumenta.
- Se mantiveres o pace mas baixares a cadência, o corpo compensa com mais impacto.
- Um treinador experiente consegue usar a calculadora de pace e a cadência do atleta para identificar a cadência ideal para cada velocidade alvo.
Isto permite-te ajustar o teu treino como um atleta profissional faria.
4. Porque a cadência na corrida baixa é inimiga da técnica
Quando corres com cadência baixa, surgem vários problemas biomecânicos:
Overstriding: o pé aterra demasiado à frente, travando o movimento.
Impacto vertical elevado: o corpo “cai” mais a cada passada.
Passada longa demais: maior carga no quadríceps, joelhos e anca.
Menor cadência = maior tempo no ar: mais energia desperdiçada.
Exemplo prático:
Um corredor com cadência de 158 spm a correr a 5:00/km tem maior probabilidade de aterrar à frente do corpo. Ao subir para 168 spm, o pé aterra debaixo do centro de massa, o impacto baixa e o ritmo fica mais estável. Isto ocorre mesmo que o pace seja idêntico, é a biomecânica que melhora.
5. Como treinar a cadência na corrida de forma eficaz
Para aumentar a cadência sem perder eficiência, deves treinar usando estímulos progressivos.
1. Aumenta apenas 3–5 % por vez
Se corres com 160, não saltes directamente para 180.
O corpo precisa de adaptação muscular e neuromotora.
2. Usa treinos específicos de cadência
Aqui estão métodos práticos:
a) Blocos controlados de cadência
Corre 1 min a ritmo fácil com a tua cadência normal + 5%.
Repete 6–10 vezes.
É seguro e treina o padrão motor.
b) Fartlek de cadência
3 min com cadência confortável
1 min com cadência + 10%
5 a 8 repetições
Este treino é óptimo para reforçar memória neuromuscular.
c) Corrida com metrónomo
Muitas apps permitem configurar o BPM.
Basta definires a cadência alvo e corres ao ritmo do “tic-tic”.
d) Séries curtas de técnica
Inclui drills como:
- “strides” de alta frequência
- skipping alto
- corrida no lugar
- progressões controladas Estes exercícios preparam gémeos, glúteos e core.
3. Fortalecimento específico
A cadência não aumenta só com prática, mas também com força:
- gémeos
- sóleo
- tibial anterior
- glúteo médio
- core
- flexores da anca
Treinar 2 vezes por semana exercícios como saltos controlados, skipping, elevações de gémeos e trabalho de propriocepção ajuda a estabilizar a técnica quando queres aumentar cadência.
6. Erros comuns no treino de cadência
- Aumentar cadência quando se está cansado demais: o corpo perde técnica.
- Forçar cadência alta com passada longa: biomecanicamente impossível e lesivo.
- Tentar copiar cadências de atletas de elite: estas surgem de eficiência, não de imposição.
- Aumentar a cadência sem reduzir ligeiramente o comprimento da passada: causa “over-striding invertido”, aumentando impacto.
- Usar calçado que dificulta ajustes: por exemplo, ténis demasiado pesados.
7. Cadência na corrida e economia: a ligação menos falada
A economia de corrida não depende apenas de VO₂máx e força.
A cadência influencia directamente:
- o custo energético por passada
- a eficiência muscular
- a oscilação vertical
- o impacto activo
- o tempo de contacto com o solo
Atletas com cadência estável tendem a:
- manter ritmos altos com menor gasto
- evitar quedas de técnica na fadiga
- recuperar melhor entre treinos
A estabilidade é tão importante quanto o valor absoluto.
Exemplo prático (caso real simplificado)
Um atleta de meia-maratona corre com cadência média de 162 spm a 4:45/km. Após 6 semanas de treino:
- passou para 170 spm
- manteve o pace
- reduziu impacto tibial
- melhorou consistência nas séries
- reduziu dores na anca
Não aumentou velocidade, melhorou eficiência.
A cadência na corrida foi o factor-chave.
Conclusão
A cadência na corrida é mais do que um número no relógio: é um indicador directo de eficiência, técnica e economia. Quando a entendes e ajustas ao teu corpo, começas a correr com mais fluidez, mais controlo e menor desgaste.
Encontrar o teu ritmo ideal não é imitar outros corredores, é ajustar progressivamente, medir, testar e consolidar padrões que o teu corpo consiga manter tanto em ritmos fáceis como em ritmos de prova.
Com as ferramentas certas, incluindo a calculadora de pace do All4Running e uma abordagem progressiva, a cadência torna-se um dos teus melhores aliados para evoluir como atleta.
FAQs sobre o tema
1. A cadência na corrida ideal é sempre 180?
Não. Este valor é apenas uma referência histórica. A cadência ideal depende do teu corpo, ritmo e técnica.
2. Aumentar a cadência na corrida faz-me correr mais depressa?
Não necessariamente. Mas melhora eficiência e reduz impacto — o que pode permitir ritmos mais rápidos no futuro.
3. Cadência na corrida baixa causa lesões?
Está associada a maior impacto e maior probabilidade de overstriding, o que pode aumentar risco de lesões.
4. Como sei se estou a exagerar na cadência na corrida?
Se a tua respiração acelera demasiado ou sentes que os passos ficam artificiais, estás a forçar demasiado.
5. Posso treinar cadência todos os dias?
Não é necessário. 2 a 3 sessões por semana são suficientes.
6. A cadência varia em trail?
Sim. Terrenos técnicos reduzem cadência e aumentam variabilidade, o que é normal.



